O momento
Eram 4 da tarde. Creio que o mês era Fevereiro e o ano 1994. Estava com um amigo a beber café junto a uma das artérias mais movimentadas de Lisboa. Não me lembro quem era o amigo, não me lembro qual era o tema de conversa - é esta fraqueza de memória que me leva a escrever este blog para que nem tudo se perca. No entanto, como a imagem que se seguiu me ficou, para sempre, gravada na memória, saberia ainda hoje dizer qual a mesa e cadeira em que estava sentado. Dessa mesa partiram os meus olhos, como que alertados por uma força transcendente, em direcção ao balcão.
Os sapatos eram pretos. A saia, curta, igualmente preta e as meias negras, mas suficientemente translúcidas, deixavam antever umas pernas deslumbrantes, como só as bailarinas têm, com a medida certa de músculo e elegância feminina. O cabelo era castanho, liso, solto e comprido.
De repente virou-se para o lado para conversar com alguém que a acompanhava. Não sei dizer se homem se mulher porque a impressão cerebral da minha memória deixou a companhia para lá das margens. Era linda!
Nunca fôra - nem voltei a ser - de grandes atracções físicas. Até ali todas as minhas grandes paixões eram um misto de alguma atracção física com uma forte atracção pela personalidade. Era uma amor que não brotava sozinho, antes se cultivava. Irritava-me a futilidade que associava à maioria da beleza.
Por essa altura clamava, com o orgulho de quem sabe que é algo aberrante mas não se importa com isso, que me atraía por cérebros e não por corpos...
Mas nesse momento tudo parou.
Após alguns instantes, demasiado rápidos para o meu deleite, ela saiu. O olhar do meu amigo, alertado pelo meu, também a seguiu. Pensei alto "é com ela que eu vou casar", para grande divertimento de quem ouviu...
Quatro anos e um mês depois, num dia 13 e sob um dilúvio, casávamos numa quinta nos arredores de Lisboa.
Se tivesse de escolher o momento mais importante da minha vida até hoje, este seria o escolhido.
Dele partiu tudo o que de melhor e de pior aconteceu nesta minha existência de 34 anos.
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1 Comments:
Às vezes dizemos uma coisa e os anjos escutam e dizem amén. E depois os nossos desejos tornam-se realidade. A vida é feita destes pequenos episódios dignos de um livro da Danielle Steel. És um romântico :)
beijo da Maria
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