Terça-feira, Dezembro 19, 2006

Estados... Civis

As memórias são como o vinho Para serem boas devem ser envelhecidas, amadurecidas.
Esta é verde... nem sequer teve tempo para começar a fermentar.
Sinto, no entanto, que a tenho de relatar agora pois pode ser daquelas que azedam e não fazem vinho... transformam-se em vinagre.
Contrariamente à memória, a decisão foi perfeitamente amadurecida.
Já uma semana antes do casamento alguns amigos e familiares me advertiram daquilo que pensavam poder ser um erro. Fizeram-no porque nos meses anteriores ela andava perfeitamente insuportável e agressiva para todos.
Tudo era fundamento de discussão e quando não havia pretexto, inventava-se.
Aquelas discussões e provocações mesquinhas mexiam tanto comigo que por várias vezes tive de me retrair para não ser violento. Até essa altura não pensava sequer que alguém me pudesse colocar nesse estado.
Disse à minha mãe e ao Ricardo que estava certo que o comportamento dela se devia aos nervos, por ter perdido o avô que fôra pai para ela, por ter uma péssima relação com a mãe que a abandonara, por sentir o casamento a aproximar-se - Afinal, eu já a conhecia há dois anos e sabia que ela não era assim...
Recordo-me de lhes ter dito que o casamento ou duraria uma semana - se o estado de espírito não se alterasse após a cerimónia - ou para a vida inteira.
Resistiu sete anos.
Os primeiros foram muito bons. Os últimos péssimos.
As razões concretas não importam para aqui, mas fogem das tradicionais infedilidades. Ambos tivemos erros de casting. Nenhum de nós é aquilo que o outro pretendia para o resto da vida.
Embora a decisão só tenha sido assumida há 3 dias o nosso casamento já é uma memória. Na verdade, já o era de facto há quase dois anos. Vivíamos juntos mas divorciados, a bem dos nossos filhos que adoramos.
Um dia contarei a memória dos dias que me esperam e me angustiam. A memória da luta que terei de travar para ter a guarda- ao menos conjunta - dos meus filhos. A memória da luta que travarei para evitar que ela saia para Lisboa levando-os. São eles os meus bens mais preciosos, a minha razão de vida e não me imagino a vê-los apenas de 15 em 15 dias.
São estas memórias futuras que poderão azedar uma recordação que, por agora, nada tem de amargo. Não resultou e pronto! Sem culpas e sem rancor!

Terça-feira, Outubro 24, 2006

Livros

Durante anos devorei literatura.
Aos 13 ia semanalmente à biblioteca municipal buscar munições. Saía sempre carregado.
Dava-me gozo o ar aparentemente (e, quem sabe, estudadamente) surpreendido da funcionária na semana seguinte quando eu os devolvia; Já leste isso tudo?
Eram, sobretudo, livros de aventuras que ia alternando com alguns romances.
Deitava-me em cima da cama assim que chegava e só terminava quando o sono me interrompia.
Durante anos o meu livro favorito foi o Corsário Negro de Emílio Salgari – uma aventura de piratas, ao bom estilo dos filmes de Errol Flynn –, que devo ter lido umas dez vezes.
Tentei outros livros do mesmo autor, mas nenhum despertou em mim a mesma chama.
Os únicos livros que não consegui ler na minha adolescência foram os de leitura obrigatória na escola. Sempre detestei tudo o que me é imposto, por isso recusei-me a ler Maias, Família Inglesa, The Pearl de Steinbeck, e muitos outros que só li mais tarde, quando já não estava obrigado a fazê-lo.
A verdadeira qualidade literária só a descobri a partir dos meus 18 anos. Descobri Mário de Sá Carneiro com uma namorada, Sommerset Maughan com outra, Rushdie com o Nobel e acima de tudo descobri Garcia Marquez – de quem li tudo o que havia para ler, desde os primeiros contos publicados no Jornal até aos livros mais conhecidos – e Isabel Allende cuja Casa dos Espíritos é uma obra prima inigualável.
Desde o dia em que comecei a viver com aquela que viria a ser minha mulher que deixei de ler. Era impossível fazê-lo perto dela e ela estava sempre por perto.
Estive anos assim e só recentemente – quando comecei a descobrir o muito que tinha perdido com essa e outras concessões – comecei a tentar ler de novo.
Digo tentar porque nenhum outro livro me voltou a entusiasmar e vou coleccionando leituras inacabadas na mesa-de-cabeceira. Mais do que falta de entusiasmo pareço ter uma dificuldade enorme em manter a concentração – talvez sintoma prematuro desse alzheimer que tanto temo – embora digira com facilidade toda a informação que capto por outras vias e através das leituras a que sou obrigado profissionalmente.
No momento em que escrevo pareço ter encontrado o antídoto para tal mal. Chama-se Memórias das minhas putas tristes de Garcia Marquez, que está aqui ao meu lado porque ainda não o consegui largar desde o momento em que lhe peguei na noite de ontem. Só o Gabriel para me curar…
Sendo filho de pessoas simples, com uma instrução mínima, creio que foram aquelas primeiras leituras que me ajudaram a formar grande parte do meu carácter.
Costumava dizer que me eduquei a mim próprio. Tal frase encerra em si mesma uma grande injustiça para com os meus pais que me transmitiram os melhores valores que tenho, mas tem um fundo de verdade quanto àquela que foi a minha educação cultural.
Não fossem as noites mal dormidas que passei a tentar terminar um qualquer livro que me entusiasmou e eu não seria, certamente, o mesmo.
Os meus horizontes fui eu próprio que os abri.
Curiosamente, na adolescência, mantinha as leituras secretas. Não queria passar por “cromo”. Fazia um esforço enorme para usar as palavras mais simples com os amigos e não ser, de imediato, rotulado de “marrão”.
O vocabulário desenvolvido com a leitura atrapalhava no dia a dia. Era um óbice na tasca, entre os traçadinhos e as imperiais, o que fez de mim um miúdo bastante calado, até porque sempre tive a tendência para, entre dois sinónimos, fixar a palavra mais difícil e esquecer a fácil – do género do tipo que pede sempre uns comprimidos de ácido acetilsalísilico porque não se consegue lembrar do nome da aspirina.
Mas foi a leitura que me deu a paixão pela língua portuguesa, que gostava – um dia – de saber tratar bem e a partir dessa paixão uma outra: o nacionalismo no sentido de gosto por ser português, por partilhar esta língua, cultura e maneira de ser que faz de nós um dos melhores povos do mundo.

A Joana

A minha segunda namorada foi a mais bonita. Era linda a Joana.
Penso, de resto, que tal como as Patrícias, quase todas as Joanas são bonitas… Parece que há qualquer coisa nalguns nomes que predispõe para a beleza desde o batismo.
É claro que a beleza está, acima de tudo, nos olhos de quem a vê e corresponde aos critérios subjectivos mais ou menos alargados de cada um de nós.
Lembro-me do Prof. Sebastião Louro, meu professor de Relações Públicas e um verdadeiro gentleman, dizer que todas as mulheres são bonitas, só por serem mulheres.
Esta é a versão mais alargada de beleza feminina que conheço.
Mas fosse qual fosse o critério, a Joana era – e é – linda.
Conheci-a nas festas da Elsa.
A Elsa era uma colega de escola do meu 7.º e 8.º ano que organizava umas matinées na sua casa. Sempre muitos rapazes e raparigas, muitos slows para dançar e sofás sempre ocupados por “curtes” mais ou menos frenéticas.
A Joana veio numa festa de aniversário, amiga de uma qualquer convidada.
Estava vestida de preto e verde tropa. Ficava-lhe bem, destacava os olhos verdes e o cabelo claro. Tinha um ar angelical. Foi amor à primeira vista.
Recorrendo, mais uma vez, a intermediários, começamos a namorar algum tempo depois.
Foi mais uma relação completamente naif, em que os momentos altos eram aqueles em que a ia buscar à escola e acompanhava a casa de mão dada.
Não era inteligente, mas compensava com uma simpatia transbordante. Era carinhosa, calma – já disse linda? – e tão tímida e ingénua quanto eu era.
Durou cerca de um ano. Terminou porque fomos crescendo e querendo mais de uma relação, mas estávamos tão condicionados pela nossa rotina que não conseguimos que a nossa relação crescesse connosco.
Vi-a no ano passado, mais bonita do que nunca, mas com o mesmo ar tímido e ingénuo e a mesma simpatia que a tornavam encantadora.
Tenho pena de que a nossa relação não tivesse acontecido uns anos mais tarde. Gostaria de ter experimentado um relacionamento "a sério" com ela.
E tenho saudades daqueles dias em que o coração batia mais forte só pela emoção de dar a mão a alguém..

A primeira namorada

Não me posso queixar de falta de oportunidades para conhecer as mulheres. Fiz algum sucesso nalguns períodos da minha vida. Também houve períodos em que fiz sucesso com os homens, mas isso ficará para outra oportunidade.
Nunca fui homem de one night stands. Foram pouquíssimos os “flirts” que tive. A timidez nunca me permitiu grandes aventuras com pessoas mais ou menos desconhecidas. Já as relações, entendidas por mim como sendo tudo aquilo que durou mais de 15 dias e começou com intenção de durar, foram muitas e bastante ricas em experiência(s).
Conheci mulheres fantásticas de quem ainda hoje me lembro com saudade, outras que já quase esqueci e algumas - poucas – que gostava de não ter conhecido.
Por ser este um blog de memórias e por serem elas uma parte importantíssima do meu passado, vou tentar lembrar-me aqui dessas relações.

A minha primeira namorada foi a Paula Nave. Sim porque a Paula Roque da 4.ª classe não era correspondida e eu odiava quando ela me esmagava com os seus abraços e me tentava dar beijos na boca que eu, com ar repugnado esquivava.

Foi um arranjinho de um amigo, o Luís Barata. Tínhamos onze anos. Minto, eu onze e ela doze - penso que tinha chumbado na quarta classe.


O Luís dizia-me que ela gostava de mim e a ela dizia que eu gostava dela. Eu penso que nem sequer teria reparado nela até ele começar com isto. Ele disse-lhe que eu tinha uma carta escrita para ela. Era mentira, mas agora tinha de escrever qualquer coisa porque ela perguntava-lhe pela carta todos os dias.

Ela tinha o cabelo curto, flexível, era bem mais alta que eu, um pouco maria rapaz. Na altura eu achava-a muito bonita.

Enviei-lhe uma carta com uns indecifráveis poemas de Camões. Ela foi simpática e mentiu: mandou dizer que adorou. Passámos a corresponder-nos através do Luís. Era uma emoção quando nos cruzávamos e trocávamos olhares ou quando dizíamos olá.

Demorou quase um ano até nos beijarmos pela primeira vez. O meu primeiro beijo! Foi fantástico.

Junto ao ciclo preparatório que frequentávamos havia uns prédios de habitação social cujas obras de construção estavam há muito interrompidas.

Era um dia de Inverno, daqueles em que ás 18H30 já é noite cerrada.

Eu ia com o Luís, ela com uma amiga. Encontrámo-nos frente ás obras. Sem dizer uma palavra encaminhámo-nos para o hall de um dos prédios. Ali, no escuro, abraçámo-nos e os nossos lábios tocaram-se num longo beijo. Ainda me lembro do arrepio que me percorreu a espinha quando senti a língua dela tocar suavemente o meu lábio superior. Foi o melhor beijo da minha vida.
Passei dias e pensar nele e a tentar sentir o perfume dela no meu corpo.

Terminámos, por carta, alguns meses depois. Foram quase dois anos de namoro.
Penso que a vi há uns anos a trabalhar como caixa num hipermercado de Lisboa.
Foi a primeira. Não posso dizer que "não há amor como o primiero". Não, não foi o caso. Mas que marcou, marcou.

Quinta-feira, Outubro 19, 2006

Este sou eu


Nasci pesado – 4,5 kg – e cabeludo. Dizia a parteira, a senhora Nazaré, que só conhecia uma senhora que paria filhos mais pesados.
O parto foi em casa. Apesar da minha mãe ser extremamente franzina – tem 1,56m e uns 50 quilos – e eu enorme, foi rápido e indolor.
A avó Clementina que dormia no quarto ao lado nem sequer acordou.
Fui sempre um miúdo calmo. Deixei rapidamente de ser grande e até aos 14 anos fui sempre um dos mais pequenos – ou mesmo o mais pequeno –, da minha sala. Só depois saltei para o 1,80m que tenho agora.
Até aos dois anos a minha mãe nunca me cortou o cabelo. Fazia-me rabos-de-cavalo, totós, colocava ganchos... enfim... Diz a minha irmã que só por sorte saí heterossexual. Na opinião dela a forma como a minha mãe me arranjava parecia apta a predispor-me para outras vias...
Fui um miúdo tímido e geralmente bem comportado. Creio que a timidez transparece da fotografia tirada lá para os meus 4 anos.
Recordo-me de me dizerem com frequência que era muito bonito, que parecia uma menina.
Eu não encaixava a comparação lá muito bem mas, acanhado, limitava-me a responder com um sorriso.
Depois do peso inicial tornei-me magro. Extremamente magro na adolescência – esquelético mesmo lá para os 13-14 anos – magro no resto do tempo. Só quando, há dois anos, deixei de fumar e ganhei 10 quilos perdi esse rótulo.
Esta foto traz-me particulares recordações.
Do buraco no corrimão que está por detrás de mim saiu a primeira vespa que me picou. Lembro-me de ter ficado parado a gritar e de o meu padrinho – que estava por perto – ter vindo a correr, ter-me arrancado a vespa do pescoço – onde ainda estava – a ter atirado ao chão e esmagado.
Ele que me costumava pendurar deste e doutros varandins que ali existiam, agarrando-me só por um pé.
Lá atrás brinquei até aos 6 anos.
Foi ali que parti a cabeça quando a corda com que eu corria se prendeu no pneu de um carro levando-me a cair e bater com a nuca no chão. Lembro-me da aflição da minha mãe a lavar-me a cabeça no tanque da roupa, assustada com a quantidade de sangue.
Foi ali por trás que eu fumei o primeiro cigarro. Teria um 5 anos, começava a mudar os dentes e como tinha dores deram-me um cigarro para as tirar.
Ao fim de duas passas a minha mãe – que discordara da ideia – gritou da varanda ordenando-me que o deitasse fora.
Eu disse que sim mas fui esconder-me junto ao lagar, onde fumei o cigarro até sentir o sabor do filtro. Era um Português Suave.
Era ali atrás o armazém do meu pai, onde o meu padrinho – que ainda hoje trabalha com ele – me pegava ao colo e atirava ao ar até quase me fazer bater com a cabeça no tecto.
Foi ali que tive pela primeira vez um mocho na mão, apanhado por um vizinho caçador.
Era, também lá atrás o armazém do marceneiro que vendia caixões. Esse que um dia, certamente para se divertir, me deu um cálice de jeropiga provocando-me o meu primeiro estado alcoólico.
Ali era o meu território – os meus domínios.
Por ali andava livremente.
Guardo memórias felizes daquelas bandas

Terça-feira, Outubro 17, 2006

O Pior

Há momentos que não se descrevem.
Não se descrevem porque as palavras nunca serão suficientes para os transmitir ou porque a força emotiva com que os vivemos não nos permite guardar memória de todos os pormenores suficientes para dar a força devida à imagem. Tive duas situações dessas na vida que para memória futura aqui deixo, sabendo desde já que aquilo que disser jamais fará jus ao que senti. As duas más e as duas associadas ao Gonçalo, o meu filhote mais velho. A primeira foi um falso alarme, bolsou sangue quando era bebé, numa quantidade assustadora. Estava ao colo da minha mulher que entrou de imediato em pânico. Não estivesse eu por perto e tinha-o atirado ao chão. Não fez por mal, foi o reflexo causado pelo pânico.
Corremos para as urgências mas acabou por não ser nada importante: tinha sangrado do nariz durante a noite e engoliu o sangue que depois bolsou.
Nada comparável ao que estava para vir.
O Gonçalo sai ao pai. Além da semelhança física, partilhamos a mesma paixão por animais, pelas árvores e pela aventura.
Infelizmente também partilhamos uma grande facilidade em adoecer com gripe e uma tendência para fazer febres absurdamente elevadas.
Há cerca de dois anos e meio vivíamos em casa dos meus pais. Tínhamos comprado a nossa casa actual há pouco tempo e como planeávamos que as obras fossem muito breves - acabaram por durar mais de 2 anos - arrendámos o nosso apartamento a estudantes e saímos de casa.
Seriam umas 21H00.
Quando cheguei do trabalho vi que ele estava a arder em febre e decidi dar-lhe um banho para baixar. Resultou, baixou para 37. A seguir ao Jantar sentámo-nos na sala dos meus pais - a casa tem dois pisos, nós vivíamos em cima, eles em baixo, mas fazíamos as refeições sempre juntos -, o Gonçalo deitou-se.
Estava de pijama, a ver televisão, bem disposto.Estava deitado à minha frente. Subitamente vi-o começar a esticar-se completamente. Foi uma imagem terrível. Estava apenas com os calcanhares e a cabeça assentes no sofá, com o resto do corpo hirto e os olhos a revirar.
Apercebi-me de imediato da gravidade, saltei do sofá, peguei-lhe ao colo e sai a correr porta fora em direcção ao carro.
Atrás de mim a Cláudia gritava que ele estava roxo, a sufocar. Enquanto corria meti-lhe os dedos na boca para compor a língua. Vi que estava a espumar.
A Cláudia não me deixou conduzir, não sei se por ter medo da condução que eu faria, se por ter medo de pegar no Gonçalo e entrar em pânico.
Quando entrámos no carro já o Gonçalo não tinha pulso.
Comecei a fazer-lhe massagens cardíacas e respiração boca-a-boca. Todos os meus gestos foram maquinais, de aparente frieza e objectividade. Foi como se a parte emocional se tivesse separado do resto do meu corpo. Por um lado estava assustado e convicto de ter perdido o meu filho, por outro não perdi o controle por um segundo.
Cerca de um longuíssimo minuto depois o coração recomeçou a bater.
Entretanto chegámos ao Hospital. Corri com ele nos braços - penso que saltei do carro em andamento...
Já lá dentro, enquanto corria pelos corredores da urgência, o Gonçalo recuperou os sentidos olhou para mim e perguntou: Onde estamos? No Hospital, respondi. Não é preciso, eu já estou bom... disse ele antes de voltar a perder os sentidos.
Os médicos foram fantásticos. Parecia uma cena de filme. Foi rodeado por 6 pessoas entre médicos e enfermeiros que fizeram tudo por ele. Foi "apenas" uma convulsão. Muito forte, mas uma convulsão.
Descobri mais tarde que para algumas crianças é possível que existam paragens cardíacas provocadas pelas convulsões fortes.
Tudo acabou bem e o episódio não se repetiu. Mas nesse dia senti o que é ter um filho a morrer-me nos braços. Nunca quero voltar a senti-lo.

Quarta-feira, Setembro 20, 2006

A primeira casa

São raras e esparsas as memórias que tenho dos meus primeiros anos.A primeira casa de que me lembro ficava junto a um Lagar, no tempo em que ainda havia lagares dentro das cidades. Estive por lá entre o meu primeiro aniversário e os 7 anos.Era um bom local para uma criança viver. Havia uma espécie de pátio interior... não - requintado de mais - um largo, isso sim, um largo bastante grande em frente a casa, que confinava com a rua principal.Nesse largo entravam poucos carros e eu podia brincar à vontade. A minha casa era amarela, assim como o Lagar e uma outra casa anexa à minha.
Em tempos haviam sido uma casa só, mas foi dividida para que os donos primitivos pudessem arrendar metade. Ambas estavam ainda ligadas por uma varanda, dividida a meio por umas grades, por entre as quais eu passava para ir brincar para a casa dos vizinhos.Era de madeira a varanda, como todo o chão.Recordo-me do dia em que uma tábua da varanda se partiu e eu fiquei com a perna pendurada. Penso que foi o meu primeiro grande susto.Vivíamos no primeiro andar. O meu pai dava os primeiros passos no seu negócio. Tinha-se estabelecido em nome individual há pouco tempo.No rés-do-chão ficava o seu armazém e escritório.Lembro-me de um buraco que existia no soalho que permitia espreitar do primeiro andar para o armazém. Era por ali que eu chamava o meu pai para vir jantar.O rés-do-chão da casa anexa era ocupado por um marceneiro. Além de móveis, fazia urnas. Eu tinha medo das urnas. Evitava entrar na marcenaria.À frente, no largo, existia uma balança para veículos pesados. Era ali que, na época de laboração do lagar, se pesavam as cargas de azeitona trazidas pelos camiões. O resto do ano estava abandonada e era um dos meus brinquedos favoritos. É que se me colocasse lá em cima e empurrasse, balançava.Um pouco mais adiante, à esquerda, estava um amontoado de barris onde eu tocava tambor para desespero dos que passavam, até que a minha mãe viesse à varanda mandar-me um berro.O lagar só abria dois a três meses por ano. Nessa altura tudo se transformava.Os trabalhadores vinham das aldeias e ficavam ali a viver durante esse tempo. A população do Largo quadruplicava nessa altura. Recordo-me do encarregado, Manuel Mota, sempre muito simpático e tolerante comigo, mas de quem me lembro melhor é do T'João Castanho que nas noites em que eu me escapava de casa para ir ter com eles ao Lagar, tirava umas brasas da lareira e colocava-as na palma da mão só para meu deleite.
Deve ter sido o meu primeiro herói.Durante o dia o lagar era um sítio fantástico para mim. A emoção que eu sentia quando lá entrava é comparável à que vejo na cara dos meus filhos em qualquer parque de diversões.Dentro do lagar existia um sistema de carris para transporte de cargas. Sobre os carris circulavam uns carros com rodas similares ás dos comboios. Eu passava os dias a "andar de skate" nesses carros.Passando o Largo chegava à estrada. Embora fosse "off limits", território proibido para mim, por vezes atravessava-a para ir brincar com o ferreiro que vivia e trabalhava do outro lado. Era um velho simpático e eu adorava ver as fagulhas que saltavam do ferro enquanto ele soldava.Seguindo pela rua, se contornasse o lagar, violando assim todas as proibições que me eram impostas, chegava a uma outra rua que passava nas traseiras de casa. Do outro lado desta rua estava um muro de pedra que a acompanhava em toda a sua extensão e que não teria menos de 3 metros de altura. No entanto, mesmo ali ao pé de mim, parte do muro havia desabado. O suficiente para eu conseguir trepar e saltar para o outro lado.Do lado de lá estava uma vastíssima Quinta, de sobreiros, azinheiras e muito espaço livre, para onde eu ia caçar grilos.Habitualmente brincava sozinho ou na companhia de adultos. Só aos 6, na escola, comecei a conviver regularmente com outras crianças. Talvez daí advenha a minha necessidade de espaço e de tempo para estar sozinho.Caracterizado o lugar, aqui voltarei futuramente para relatar as aventuras que por ali vivi.

Sexta-feira, Setembro 08, 2006

As primeiras experiências motorizadas


Faço parte daquele grupo de pessoas que pensa que consegue fazer tudo sozinho. Como se isso não bastasse sou do grupo ainda mais restrito de mentecaptos que são facilmente persuadidos a fazer qualquer coisa se a frase começar por "Aposto que não consegues...". À conta dessa frase fiz alguns dos maiores disparates da minha vida. Recordo-me, por exemplo, de aos meus 13 anos ter saltado da varanda de um segundo andar de uma casa em construção para um pequeno monte de areia só porque alguém me disse que não conseguia. Ganhei a aposta e uma boca ensanguentada.
Sempre que falo nesta minha característica lembro-me de uma história que a minha mãe costuma contar e que se passou numa viagem que os meus pais fizeram com uns amigos. A certa altura, no avião, a amiga dos meus pais pediu ao marido para lhe tirar a mala, ao que este respondeu – com má cara – que não tirava, que a mala estava muito bem ali. Sem se importunar a mulher retorquiu "Ah pois é Joaquim, isso é um bocado alto e tu não consegues... Olha, pede aí a esse senhor que é mais alto..." Não foi preciso dizer mais nada. Entre grunhidos de irritação o Joaquim tirou imediatamente a mala e ainda acrescentou "então, consigo ou não consigo???".
Pois é, eu também sou assim! E essa característica manifestou-se muito cedo. Lembro-me, por exemplo, do dia em que vi uma carrinha do meu pai parada a trabalhar. Eu teria uns 4 anos e já me considerava perfeitamente habilitado a conduzir. Afinal, aquilo era só virar o volante! O meu pai já me tinha ensinado, ao colo dele, e era facílimo.
Entrei. Olhei à volta: o caminho estava livre. Coloquei as mãos no volante, rodei para um lado, para o outro... nada! Não desisti. Carreguei em todos os botões que havia para carregar. Liguei piscas, 4 piscas, luz interior, limpa vidros... Subitamente a minha mão esbarrou um "pau" preto com um botãozinho na ponta. Carreguei no botão e o pau desceu... engraçado.... parece que estava a andar. Estava mesmo! Tinha conseguido! Pus-me de joelhos no banco, agarrei no volante e já estaria a escolher o destino quando repentinamente a porta se abriu. Um empregado do meu pai, o que tinha deixado a carrinha ligada, viera em corrida abrir a porta, puxar novamente o travão e desligar o motor.
Acabou rapidamente a minha primeira experiência ao volante, mas saí todo inchado, orgulhoso, pensando para mim mesmo "Eu logo vi que conseguia... isto é fácil."
Deixei os carros por alguns anos. O desafio estava vencido e isso para mim era o importante. Já provara que sabia conduzir.
Até que, lá para os 12, surgiu outro desafio…
Era noite, o escritório e armazém do meu pai era no rés-do-chão e nós vivíamos no primeiro andar. A minha mãe pediu-me para ir chamar o meu pai para jantar e para o lembrar que a carrinha estava na rua.
Fui ter com o meu pai, dei-lhe o recado e ele em tom de brincadeira disse-me “olha, mete tu a carrinha cá dentro”. Resolvi levar isso a sério!
Sai disparado, entrei na carrinha e revi mentalmente os procedimentos. “Destravar, engatar a marcha a trás, ligar o motor, acelerar”
Só nunca pensei que a ordem fosse importante. Primeiro destravei, depois engatei a marcha a trás, depois liguei o motor e, para minha grande surpresa, o carro começou imediatamente a andar! “Mas, isto não anda só quando se acelera??? Gaita, tou a bater no muro do vizinho, vira, vira… olha o meu muro…. Trava, trava! Mas esta treta não trava???? Ah, parou!”
Saí do carro, olhei em volta. No outro lado da rua o muro do vizinho tinha caído numa extensão de mais de 3 metros. O meu tinha partido. O carro estava mal tratado. Nesse dia pensei que o meu pai me ia espancar. Entrou no meu quarto com um ar zangadíssimo e deu-me um raspanete daqueles. Não me bateu – nunca o fez - embora na altura me tivesse parecido que esteve quase …
Nunca voltei a falar disso com ele mas hoje, sabendo que somos iguais, tenho a certeza que se desfez a rir assim que fechou a porta do quarto.
De qualquer forma, já tinha percebido qual era o problema. Já sabia que o carro andava quando se engatava a mudança. Estava desejoso de voltar a experimentar.
Um ano depois, aos 13, já passeava de carro com os meus amigos sempre que os meus pais saíam ao fim de semana.

Segunda-feira, Setembro 04, 2006

O melhor

Dia 15 de Março de 2000. Pouco passava do meio-dia. Peguei-lhe ao colo e senti que a minha vida mudava nesse preciso momento. Estava inchado, sujo e feio, mas amei-o desde o primeiro instante.
Recebi-o das mãos da enfermeira. Tinha acabado de nascer. Foi meu o primeiro colo e o primeiro beijo dele (do médico a primeira nalgada).
Há nove meses que o esperava. Minto, esperava por ele há muitos anos. Desde os 18 que tinha uma vontade imensa de ser pai.
Foi-me permitido assistir ao parto, o que no Hospital em questão não é habitual – tiveram umas más experiências com enjoos e desmaios...
Eu queria muito estar lá. Não na perspectiva do fotógrafo ou do cameramen, que acho ridícula, mas na perspectiva do pai e marido que quer estar presente, à cabeceira da cama, para ajudar. Na altura ainda tinha uma muito boa relação com a minha mulher.
Ganhei duas coisas nesse dia: um respeito enorme pelas mulheres que são mães e um filho fantástico que, aos seus 6 anos, é hoje o meu melhor amigo.
Depois dele veio a irmã, quase dois anos mais tarde.
Ele pensa que eu gosto mais dela. Como é mais pequenina dou-lhe mais colo e mais atenção. Como é menina, protejo-a um pouco mais. Temos uma relação muito especial: é ela que trata de mim como se eu fosse filho dela. Ainda hoje ao pequeno-almoço esteve a refilar comigo por eu comer só um iogurte. "Ó papá, também tens de comer um bocadinho de pão".
Na verdade gosto dos dois na mesma medida e não estou apenas a recorrer a um cliché, é mesmo assim. São eles o melhor que me aconteceu, mas houve qualquer coisa de especial naquela primeira vez em que lhe peguei ao colo. Recorrendo a outra frase feita diria que é algo que não se explica, sente-se!